Inteligência Emocional

Emoção não é fraqueza: é informação que a maioria dos líderes ignora

Existe uma narrativa antiga, e burra, de que líder bom é líder frio. Quem acredita nisso lidera mal.

Júlio Pereira2 min de leitura
Detalhe de mão sobre o peito

Existe uma narrativa antiga, e burra, de que líder bom é líder frio. Decide com a cabeça. Não se deixa abalar. Olha tudo "de fora".

Quem acredita nisso lidera mal. E a neurociência tem 30 anos de evidência confirmando isso.

A descoberta que mudou tudo

Em 1994, o neurocientista António Damásio publicou Descartes' Error, um livro que demoliu 300 anos de filosofia ocidental.

Damásio estudava pacientes com lesão no córtex pré-frontal ventromedial, a região do cérebro que conecta emoção e decisão. Esses pacientes mantinham QI alto, raciocínio lógico intacto, vocabulário preservado.

Mas eram incapazes de tomar decisões cotidianas.

Não conseguiam escolher entre dois restaurantes. Ficavam horas analisando vantagens e desvantagens. Em decisões mais complexas (financeiras, profissionais), quebravam por completo.

A conclusão de Damásio foi devastadora: emoção não é o oposto da razão. É a infraestrutura da razão. Sem o sinal emocional, o cérebro não consegue priorizar. E sem priorizar, não consegue decidir.

O que isso significa para liderança

A liderança "racional demais", que tenta extirpar a emoção da equação, não é mais inteligente. É mais incompleta.

O líder "frio" acha que está fazendoO que ele está realmente fazendo
Decidindo com lógicaReprimindo dados emocionais relevantes
Sendo imparcialIgnorando o que o time sente
Mantendo controleConstruindo distância
Sendo profissionalSendo desconectado

Não é à toa que esses líderes geram, sem perceber, equipes ressentidas. A equipe sente que o líder não a vê. E não vê mesmo, ele se proibiu de ver.

We are not thinking machines that feel; we are feeling machines that think.

António Damásio

O treino real: escutar sem ser refém

Inteligência emocional não é sobre eliminar emoção. É sobre mediar a emoção.

Tem 3 passos práticos:

  1. Nomear. Quando algo te ativa, pause e nomeie. "Estou com raiva." "Estou com medo." "Estou frustrado." Pesquisas de Matthew Lieberman (UCLA) mostram que nomear uma emoção reduz a ativação da amígdala em até 50%. Só nomear.
  2. Investigar. Pergunte: de onde vem? do que está aqui agora, ou do que isto está me lembrando? A maior parte das reações emocionais intensas é eco de algo antigo. Reconhecer isso devolve poder.
  3. Decidir. Só agora você decide a ação. Não pela emoção. Não contra a emoção. Com a informação que a emoção trouxe.

Esse processo dura, na prática, 15 segundos. Mas separa a maioria das reações ruins das respostas conscientes.

Conclusão

Líder emocionalmente inteligente não é o que parece calmo. É o que consegue estar nervoso, reconhecer que está nervoso, e ainda assim agir a partir da decisão, não da reação.

E essa diferença, que parece sutil, é o que separa uma equipe que confia de uma equipe que apenas obedece.

Perguntas frequentes

Inteligência emocional é o mesmo que controle emocional?
Não. Controle emocional é só uma das quatro dimensões da IE de Daniel Goleman: autoconhecimento, autogestão, consciência social e gestão de relacionamentos. Quem só se preocupa com controle vira ator. Quem desenvolve as quatro vira líder.
Como saber se eu sou emocionalmente inteligente?
Tem dois sinais práticos. 1) Quando você está sob pressão, você consegue nomear o que está sentindo antes de reagir? 2) Quando alguém te critica injustamente, você consegue separar o que tem de verdade do que tem de raiva da outra pessoa? Se a resposta para os dois é sim, na maior parte das vezes, você tem IE acima da média.
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