O que a sua comunicação atrai: por que o público errado quase sempre foi convidado por você
Durante décadas formando líderes e empresários, observo a mesma queixa: 'meu público não compra'. Quase nunca é o público. É o convite que a comunicação fez sem que ninguém percebesse.
Existe uma cena que se repete quando estou com um empresário.
Ele chega frustrado com o próprio público. Diz que produz muito conteúdo, que o alcance até é bom, que as pessoas elogiam. Mas ninguém compra.
E, quase sempre, ele completa com a mesma frase: "acho que meu público não tem dinheiro".
Aqui costumo pausar. E devolver a pergunta que muda a conversa inteira.
E se esse público não tem dinheiro porque foi exatamente ele que você convidou?
A sua comunicação não é um megafone. É um filtro. Ela não fala com todo mundo. Ela seleciona, com precisão quase cruel, um tipo específico de pessoa. E depois entrega esse tipo na sua porta.
Toda comunicação faz um convite silencioso
Quando você publica alguma coisa, você acha que está informando. Não está. Você está fazendo um convite.
Esse convite tem um destinatário implícito. Alguém, do outro lado, lê e pensa: isso é pra mim. E outra pessoa lê a mesma coisa e pensa: isso não é pra mim.
Ninguém verbaliza esse processo. Ele é instantâneo, quase inconsciente. Mas ele opera em toda peça de comunicação que você produz.
O problema é que a maioria das pessoas escolhe o conteúdo pelo que é fácil de produzir, não pelo tipo de gente que aquele conteúdo convida. E depois se surpreende com quem apareceu.
Cinco tipos de comunicação e o que cada uma atrai
Deixo aqui o mapa que uso quando estou com um empresário que está atraindo o público errado. Cinco padrões. Cada um com um convite embutido.
1. Se você fala de passo a passo, atrai iniciantes
Passo a passo é conteúdo de entrada. Ele responde à pergunta "como eu começo?".
Quem faz essa pergunta é, por definição, quem ainda não começou. Então o passo a passo convida, com precisão, quem está no ponto zero.
Isso não é ruim em si. É ruim quando é tudo o que você comunica. Porque o iniciante tem três características previsíveis:
- Ele compara preço antes de comparar resultado.
- Ele consome muito conteúdo gratuito antes de considerar pagar.
- Ele troca de referência com facilidade, porque ainda não sabe distinguir profundidade de superfície.
Se o seu produto é caro e exige maturidade, e você só comunica passo a passo, você está enchendo sua audiência de gente que ainda não está pronta pra comprar. E ainda vai gastar energia explicando por que seu preço é aquele.
2. Se você mostra ostentação, atrai quem não pode pagar
Esse é o mais contraintuitivo, e o que mais engana gente inteligente.
A lógica que a pessoa usa parece razoável: se eu mostro resultado, as pessoas vão querer aquele resultado. Mas ostentação não comunica competência. Comunica distância.
Quem já tem patrimônio olha carro importado e não se impressiona. Ele conhece o preço, conhece a manutenção, provavelmente já teve um. Ostentação não move quem já chegou.
Quem se impressiona com ostentação é justamente quem está longe daquilo. E quem está longe daquilo, em geral, não tem como comprar o que você vende. Ele consome o seu conteúdo como consome entretenimento: com admiração, sem intenção de compra.
Você atrai plateia. Não atrai cliente.
3. Se você promete ganhos rápidos e sem esforço, atrai quem não quer esforço
Essa é a mais perigosa, porque ela funciona no curto prazo. O conteúdo viraliza. Os números sobem. Parece que deu certo.
O problema aparece depois. Promessa de facilidade é um ímã pra quem está buscando exatamente isso: facilidade.
E quem busca facilidade tem um perfil bem definido:
- Não sustenta processo que exige tempo.
- Culpa o método quando o resultado não vem em semanas.
- Pede reembolso com frequência maior que a média.
- Não indica ninguém, porque não teve resultado pra indicar.
Você constrói uma base de clientes que não executa, e depois passa a ser cobrado por um resultado que dependia de um esforço que você mesmo disse que não seria necessário.
Quem promete facilidade recebe, de volta, exatamente quem não quer trabalhar. E fica refém dessa expectativa.
4. Se você mostra técnicas, atrai concorrentes e gente da sua área
Esse é o erro do especialista apaixonado pelo próprio ofício.
Ele mostra a técnica. Explica o método. Detalha a ferramenta. E fica orgulhoso do reconhecimento que recebe.
O detalhe é quem está reconhecendo. Quem entende de técnica é quem trabalha com aquilo. Ou seja: colegas, concorrentes, gente da área.
O cliente final quase nunca quer entender a técnica. Ele quer entender o que a técnica resolve na vida dele. O paciente não quer saber o nome do procedimento. Quer saber se vai parar de doer.
Comunicar técnica te dá respeito entre pares. É ótimo pra reputação profissional. Mas se for a base da sua comunicação comercial, você vai construir uma audiência de gente que faz o que você faz, e não de gente que precisa do que você faz.
Esse é o mesmo padrão que faz o técnico brilhante ficar preso enquanto colegas menos preparados avançam. O ofício é obrigatório. Não é o que conecta.
5. Se você fala de liberdade de tempo, atrai quem já tem dinheiro
Aqui está a virada que quase ninguém percebe.
Quem tem dinheiro e não tem tempo está comprando uma coisa completamente diferente de quem não tem dinheiro.
O empresário de meia-idade que fatura bem e não vê os filhos crescerem não está atrás de mais um método pra ganhar dinheiro. Ele já ganha. O que ele quer é o que o dinheiro dele ainda não comprou: tempo, presença, saúde, tranquilidade, sentido.
Quando você comunica isso, quatro coisas mudam de uma vez:
- Você atrai quem tem poder de compra, porque o problema que você nomeou é o problema de quem já tem dinheiro.
- Você elimina a objeção de preço, porque a pessoa não está comparando com o conteúdo gratuito, está comparando com o custo de continuar como está.
- Você atrai gente que executa, porque quem chegou até ali chegou executando.
- Você atrai gente que indica, porque o círculo dela é feito de pessoas parecidas com ela.
É o mesmo esforço de comunicação. Com um resultado completamente diferente na outra ponta.
O erro de ordem que quase todo mundo comete
O erro não está no conteúdo. Está na ordem da decisão.
A maioria escolhe primeiro o que vai falar, e descobre depois quem apareceu. É por isso que tanta gente competente reclama do próprio público.
A ordem adulta é a inversa:
- Defina com quem você quer falar. Idade, momento de vida, dor específica, capacidade de compra, nível de maturidade no tema. Sem eufemismo.
- Descubra o que essa pessoa já sabe. Falar o que ela já domina te faz parecer raso. Falar o que ela nem imagina te faz parecer distante.
- Nomeie a dor que ela ainda não conseguiu resolver. Não a dor genérica. A dor específica, aquela que ela sente e não sabe nomear sozinha.
- Só então escolha o formato. Passo a passo, técnica, história, reflexão, número. O formato é consequência, nunca o ponto de partida.
Quem segue essa ordem para de reclamar de público. Quem inverte passa anos culpando o mercado por uma seleção que ele mesmo fez.
“Você não tem um problema de público. Você tem o público exato que a sua comunicação convidou.
”
Os três sinais de que você está atraindo o público errado
Não é difícil diagnosticar. Os sinais aparecem juntos, e são bem concretos:
- As perguntas que você recebe são sempre de nível básico. Se ninguém te pergunta nada avançado, sua comunicação está falando com quem está no começo.
- A objeção é sempre preço, nunca método. Quem tem poder de compra questiona se o caminho funciona pra ele. Quem não tem questiona o valor. Escute qual das duas pergunta domina.
- As pessoas somem quando você apresenta o que vende. Engajamento alto no conteúdo e evaporação na oferta é o sintoma clássico de audiência mal filtrada.
Se os três aparecem juntos, o problema não é comercial. É de comunicação. E nenhuma técnica de venda resolve um problema que nasceu lá atrás, no convite.
Por que isso vale muito além de vender
Esse mecanismo não opera só em marketing. Opera em toda a sua vida profissional.
O que você fala em reunião determina o tipo de projeto que cai na sua mão. Se você só fala de execução, recebe execução. Se fala de estratégia, começa a ser chamado pra conversas de estratégia.
O que você fala em roda de conversa determina o tipo de gente que se aproxima de você. Se você só reclama, atrai quem quer reclamar junto. Se você constrói, atrai quem constrói.
O que você comunica sobre si mesmo determina o tipo de oportunidade que aparece. As pessoas te convidam pra aquilo que você as ensinou a esperar de você.
Isso conversa com o eixo que separa autoridade construída de cargo emprestado. Comunicação consistente é uma das formas mais silenciosas de construir, ou destruir, o peso da sua palavra.
Comunicar bem não é falar mais. É escolher quem você quer perto.
Na Jornada PUVE, líderes e empresários aprendem, com método, a calibrar a própria comunicação pra atrair quem de fato querem ao lado. Inscrições abertas.
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Faça esse diagnóstico, que leva vinte minutos:
- Liste as últimas dez coisas que você comunicou publicamente. Post, vídeo, palestra, reunião, conversa de corredor. Sem selecionar as melhores. As últimas dez.
- Ao lado de cada uma, escreva quem aquilo convidava. Iniciante? Concorrente? Quem quer facilidade? Quem já chegou e quer outra coisa?
- Compare com a lista de quem você quer perto. Se as duas listas não se encontram, você acabou de descobrir por que o público que aparece não é o que você esperava.
A boa notícia é que isso não exige mais esforço. Exige outra escolha.
O mesmo tempo que você já investe comunicando pode convidar gente completamente diferente. Basta você decidir, antes de abrir a boca, quem você quer que apareça.
Porque quem aparece, no fim, sempre foi convidado.
Perguntas frequentes
Se eu falo de coisas mais avançadas, não perco alcance?
Nunca posso falar de passo a passo, então?
Como sei se estou atraindo o público errado?
A Jornada PUVE não é um curso.
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