Desenvolvimento Pessoal

Por que você duvida de si mesmo nas reuniões (e a frase que resolve em 5 segundos)

A síndrome do impostor não é problema de autoestima. É problema de aritmética.

Júlio Pereira6 min de leitura
Pessoa pensativa em reunião de trabalho ouvindo discussão

Existe uma cena que se repete em escala absurda em todo escritório, sala de reunião e call.

Uma pessoa competente, com anos de experiência, com resultado entregue, sentada em uma reunião importante, sente uma pressão estranha. Olha em volta e calcula: eu mereço estar aqui? E se eu falar uma bobagem? E se perceberem que eu não sou tão bom quanto pensam?

E aí ela se cala. Não fala a observação que tinha. Não faz a pergunta que precisava ser feita. Saí da reunião com um pequeno peso no peito, achando que outras pessoas falaram demais e ela falou de menos.

Você acabou de ler uma cena que custa, somada ao longo de uma carreira, milhões de oportunidades perdidas. Não por falta de competência. Por causa de uma conta que a cabeça da pessoa faz errada.

A conta errada

Se você sente isso, você não está sozinho. Mas tem uma coisa que poucos te contam.

A síndrome do impostor não é um problema de autoestima. É um problema de aritmética.

A conta que sua cabeça faz é mais ou menos assim:

Eu preciso provar que mereço estar aqui. Cada vez que eu falo, a sala está avaliando se eu mereço o lugar que ocupo. Se eu disser uma bobagem, vou perder o lugar. Logo, é mais seguro ficar quieto até ter certeza absoluta.

Esse cálculo tem um erro de base. Repare:

A premissa é "eu preciso provar que mereço estar aqui".

Mas você JÁ está aqui. Alguém JÁ disse sim. Esse sim já aconteceu. Ele não está em julgamento de novo a cada palavra que você diz.

Se você duvidar de você estar aqui, na verdade você está duvidando de quem te convidou. Está dizendo, sem perceber, "a pessoa que me chamou estava errada". Que é uma posição estranha de tomar.

A frase que muda tudo em 5 segundos

Existe uma frase que, repetida mentalmente nos primeiros minutos de qualquer reunião, recalibra todo o seu sistema interno:

"Alguém já disse sim pra eu estar aqui. O que eu tenho pra trazer agora?"

Repare nas duas partes. As duas importam.

A primeira parte ("alguém já disse sim pra eu estar aqui") desativa a conta errada. Você não precisa mais provar nada. Outro ser humano, com algum poder de decisão, já decidiu que você cabe naquele espaço. Sua função não é validar essa decisão. É honrá-la.

A segunda parte ("o que eu tenho pra trazer agora?") muda o foco de "eu" pra "contribuição". Em vez de ficar tentando avaliar se você é bom o suficiente, você vira a atenção pra fora. Pra dentro do problema sendo discutido. Pra dentro de quem está falando. Pra dentro de uma pergunta que pode ser útil.

Esse simples redirecionamento de atenção dispensa a maior parte da ansiedade de reunião. Porque a ansiedade vivia de auto-observação. Quando você olha pra fora, ela morre por falta de combustível.

A aritmética inversa

Tem uma observação que faço em mentoria que tira o chão de quem ouve pela primeira vez:

Quando você está em modo "provar"Quando você está em modo "contribuir"
Cada palavra é audiçãoCada palavra é entrega
Você fala demais OU de menosVocê fala na hora certa
Energia gasta calculando como soouEnergia gasta entendendo o problema
Sai da reunião exaustoSai da reunião com mais clareza
Pessoas notam que você "estava estranho"Pessoas lembram do que você disse

A coluna da esquerda parece ser sobre você. Mas o efeito é todo o contrário: ela te faz parecer menor pra todos. Modo "provar" é visível. Pessoas sentem desconforto na sala quando alguém está nesse modo, mesmo sem saber o que é. O ar pesa.

Modo "contribuir" é o oposto. Você fica menos visível como pessoa, mais visível como aporte. Que é o que você quer.

Os 4 micro-protocolos antes de falar

Pra quem precisa de mais que uma frase, alguns protocolos práticos:

1. Respira fundo 3 vezes antes de entrar na sala

A respiração lenta ativa o sistema parassimpático. O corpo entende que não está em perigo. A cabeça segue. Sem isso, você entra em modo defesa antes da reunião começar.

2. Prepara UMA pergunta antes

Não a obrigação de falar. Só uma pergunta na manga. Quando o assunto rolar, você já tem onde entrar. O custo de entrar com uma pergunta é mil vezes menor que o de entrar com uma opinião. E uma pergunta boa muitas vezes vale mais.

3. Fala nos primeiros 10 minutos

Quanto mais você espera, mais a cabeça inventa motivos pra continuar esperando. Quebra o ciclo cedo, mesmo que com algo simples. "Posso entender melhor o ponto X que você acabou de levantar?" basta.

4. Quando errar, segue

Você vai errar. Vai falar uma coisa que sai mal. Vai propor algo que era óbvio que não funcionava. Vai esquecer um detalhe importante. Todo mundo erra. A diferença entre quem sustenta presença e quem se retrai é o que faz no minuto seguinte.

Quem sustenta presença diz "boa, vou reconsiderar" e segue. Quem se retrai some pelo resto da reunião, ruminando sobre o erro. O time inteiro vê os dois jeitos. E os dois jeitos ensinam coisas diferentes sobre quem você é.

A confiança não vem antes de você falar. Ela vem depois. E só vem se você falou.

A virada que ninguém te conta

Tem uma virada interessante que acontece com pessoas que praticam isso por uns 6 meses. Elas começam a perceber que o impostor de fato existia. Mas não era a versão delas que estava na reunião. Era a voz na cabeça que dizia "você não merece estar aqui".

Esse é o verdadeiro impostor. É a parte de você que tenta convencer o resto que você é menos do que é. E é, por definição, mentirosa, porque você obviamente merece estar onde está (alguém já confirmou isso).

Quando você começa a ver a voz como o impostor, e não como a verdade, o jogo muda. Você não está mais lutando contra você. Está lutando contra uma versão obsoleta da sua história, que insiste em narrar você por padrões antigos.

Jornada PUVE

Sua voz tem mais lugar do que sua cabeça te conta.

A Jornada PUVE foi feita para quem quer parar de gastar energia provando que merece estar onde já está, e começar a usar essa energia pra contribuir de verdade.

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A regra prática (próxima reunião)

Esquece o resto do artigo. Esquece os 4 protocolos. Lembra de uma coisa só:

Na próxima reunião onde você sentir aquele aperto no peito antes de falar, respira fundo uma vez e pensa: "alguém já disse sim pra eu estar aqui. O que eu tenho pra trazer agora?"

Aí fala. Não importa se vai ser perfeito. Não importa se vai ser sua melhor contribuição. Fala dentro dos primeiros 10 minutos. Qualquer coisa que sirva.

Você acabou de quebrar o ciclo. Da próxima vez, vai ser um pouco mais fácil. Em 3 meses, vai ser muito mais fácil. Em 1 ano, você vai olhar pra trás e perguntar como conseguia ficar tão quieto antes.

Não era timidez. Não era falta de competência. Era uma conta errada que sua cabeça fazia.

A conta certa cabe em duas linhas. Decora.

Perguntas frequentes

E se eu realmente não souber muito do tema da reunião?
Tudo bem não saber. Diferentemente do que sua cabeça te diz, ninguém na reunião sabe TUDO. Sua função não é saber tudo, é trazer o que VOCÊ vê. Uma pergunta bem feita vale mais que uma opinião apressada. Não saber é uma ferramenta, se você usa pra perguntar em vez de pra se calar.
Por que reunião grande é pior que reunião pequena pra isso?
Porque o cérebro calcula "audiência" e ativa modo defesa. Quanto mais gente, mais a parte primitiva acha que está em risco social. O truque é lembrar que cada pessoa ali está mais preocupada consigo mesma do que com você. Você é menos observado do que pensa.
Falar cedo ou esperar pra entender melhor?
Falar cedo. Pesquisas mostram que quanto mais tempo você passa em silêncio numa reunião, mais difícil fica falar. O cérebro começa a contar histórias sobre por que você ficou calado e cria mais ansiedade. A regra é entrar nos primeiros 10 minutos, mesmo que com uma pergunta simples. Quebra o ciclo.
Jornada PUVE

A Jornada PUVE não é um curso.

É um processo de 12 meses para você se tornar a versão de si mesmo que o seu propósito exige. Vagas limitadas, turmas pequenas, acompanhamento pessoal.

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