Inteligência Emocional

O paradoxo da infertilidade secundária, amor e ausência no mesmo peito

Por que tantas mulheres carregam em silêncio o luto de um filho que ainda não veio

Mirian Pereira8 min de leitura
Mulher pensativa em luz suave, expressão de contemplação e ausência

Atendendo mulheres há mais de 25 anos em consultório, escutei muitas vezes a mesma frase, dita quase sempre em voz baixa, como se fosse um segredo vergonhoso. "Eu já tenho um filho, então não posso reclamar." A mulher que diz isso costuma estar há meses, às vezes anos, tentando engravidar de novo. Já passou por exames, tratamentos, perdas. E carrega no peito uma dor que ninguém ao redor reconhece como dor.

Existe um nome para isso. Chama-se infertilidade secundária. É a dificuldade de gestar ou levar a gravidez adiante depois de já ter tido um filho. E é um dos lutos mais silenciados que vejo em consultório clínico.

A dor existe. O reconhecimento, não.

Amar profundamente o filho que está aqui não protege ninguém de sentir falta do filho que ainda não chegou.

A vida em dois mundos emocionais ao mesmo tempo

A mulher com infertilidade secundária vive todos os dias dividida entre dois mundos. No primeiro, ela é mãe. Acorda cedo, leva a criança na escola, atende choro, prepara janta, ama. No segundo, ela é uma mulher em luto. Mede ciclo, conta dia fértil, faz teste, espera resultado, desaba. Esses dois mundos não conversam, e ela é a única ponte entre eles.

Em sessão, costumo dizer que essa divisão é exaustiva porque não tem trégua. Não dá para pausar a maternidade enquanto se elabora a dor da ausência. Não dá para pausar a dor enquanto se está sendo mãe. As duas correm em paralelo, todos os dias, dentro do mesmo corpo.

E a maior parte dessa dor acontece em silêncio. Quando a mulher tenta partilhar, vem a frase pronta. "Pelo menos você já tem um." "Agradece o que você tem." "Tem gente que não tem nenhum." Essas frases costumam ser ditas com boa intenção. Mas o efeito é cruel. Elas fecham a conversa. Calam a mulher. E ensinam que aquela tristeza não tem permissão para existir.

Por que esse luto é tão difícil de ser reconhecido

Existe um padrão consistente que observo no consultório. Quando a perda é visível, a sociedade abre espaço para o luto. Funeral, condolências, licença. Quando a perda é invisível, como é o caso da infertilidade secundária, o ambiente social não oferece nenhum lugar para a dor se instalar. E o que não tem lugar, não se elabora. Vira sintoma.

Esse luto invisível se parece com um dos quatro lutos que ninguém te ensinou a chorar, aquele que dói sem que ninguém ao redor entenda por que. A mulher chora pela menstruação que veio, pelo exame negativo, pelo ciclo de tratamento que falhou. E ouve, mesmo de quem a ama, que ela deveria estar grata.

Gratidão e luto não são opostos. São coexistentes. Pesquisas em psicologia clínica mostram, há décadas, que o psiquismo humano é perfeitamente capaz de sustentar emoções contraditórias ao mesmo tempo. Amar e sentir falta. Ter e desejar mais. Estar plena em um aspecto e em luto em outro. Tentar negar uma dessas pontas é o que adoece.

A culpa que se enrola em camadas

A infertilidade secundária ativa um ciclo de culpa que tem várias camadas, e identificar cada uma ajuda a desfazer o nó.

A primeira camada é a culpa de querer outro filho. A mulher se pega pensando que talvez esteja sendo gananciosa, como se o universo tivesse dado o que ela merecia e ela estivesse pedindo mais. Essa culpa não tem fundamento. Desejar ampliar a família é um movimento legítimo, biológico, afetivo, simbólico.

A segunda camada é a culpa de chorar na frente do filho que está aqui. A mulher teme que a tristeza dela seja interpretada como rejeição. Que a criança pense que não é suficiente. Esse medo é compreensível, e ele tem um caminho. A criança não precisa carregar o luto da mãe, mas pode conviver com a verdade de que a mãe sente coisas grandes, sem entrar em detalhes que não cabem na idade dela.

A terceira camada é a culpa diante do parceiro. Especialmente quando o tratamento se estende, custa caro, exige hormônio, exige tempo. A mulher se sente um peso. O parceiro, muitas vezes, se sente impotente. E os dois se afastam justamente no momento em que mais precisariam um do outro.

A quarta camada é a culpa de comparar. Ver amigas engravidando. Ver irmãs com a barriga crescendo. Sorrir no chá de bebê e chorar no carro depois. A mulher se julga má por sentir inveja, quando o que ela sente, na verdade, é falta.

O corpo que parecia conhecido vira estranho

Uma das dores mais agudas da infertilidade secundária é a sensação de que o próprio corpo traiu. Ele já gestou antes. Ele já deu certo. E agora, do nada, não responde. Essa quebra cria uma relação difícil entre a mulher e o próprio corpo, que passa a ser visto como falho, lento, errado.

Em consultório, observo que essa narrativa interna sabota o tratamento, a intimidade e a autoestima. A mulher começa a se olhar no espelho com julgamento. Começa a evitar relação sexual fora do dia fértil. Começa a sentir nojo dos exames, dos remédios, do próprio reflexo. O corpo que era cúmplice virou inimigo.

Reconstruir essa relação leva tempo, e ela passa por um movimento clínico delicado: parar de tratar o corpo como traidor e começar a tratar o corpo como parceiro que está em dificuldade. A diferença entre essas duas formas de se olhar muda tudo no processo emocional.

O impacto no casal que poucos enxergam

Quando a infertilidade entra na rotina, a intimidade do casal sofre. O que era encontro afetivo vira agenda. Dia fértil. Posição. Resultado. O desejo se desloca, e em muitos casais o sexo deixa de ser prazer e vira tarefa.

A psicologia clínica mostra com clareza que o desejo, a excitação e a satisfação caem nesse contexto, e isso não é falha do casal. É efeito da pressão. O problema é quando ninguém nomeia. O casal vai se afastando, sem entender por que está distante, achando que o problema é da relação. Mas o problema é da carga que a relação está sustentando sozinha.

Conversar sobre o que dói, antes de tentar resolver, costuma ser o primeiro passo que ofereço em consultório. Casais que aprendem a reconhecer os próprios padrões emocionais antes de exigir solução um do outro se reaproximam mais rápido. Os que pulam essa etapa e tentam consertar antes de acolher, ficam presos no conflito.

Sinais de que esse luto está pedindo cuidado clínico

Em sessão, observo alguns sinais que indicam que o sofrimento ultrapassou o limite saudável e está pedindo acompanhamento.

Quando a mulher começa a evitar lugares onde haja crianças pequenas. Quando o sono fica fragmentado e a ansiedade invade a noite. Quando a culpa por sentir tristeza fica maior do que a própria tristeza. Quando a intimidade do casal desaparece. Quando a mulher passa a tratar a si mesma com hostilidade no espelho. Quando o filho que está aqui começa a perceber que a mãe está distante.

Esses sinais não são fraqueza. São avisos. O psiquismo está dizendo que está carregando mais do que cabe sozinho.

A gratidão não cancela o luto. Tentar fazer com que cancele é o que adoece em silêncio.

O que ajuda, na prática

O primeiro passo é o mais simples e o mais difícil. Dar nome à dor. Dizer em voz alta, mesmo que só para si mesma, que existe um luto acontecendo. Que ele é legítimo. Que ele não compete com o amor pelo filho que está aqui.

O segundo passo é escolher com cuidado quem ouve. Nem todo mundo está preparado para sustentar essa dor sem oferecer frase pronta. Identifique uma ou duas pessoas que conseguem escutar sem consolar com clichê. Pode ser amiga, irmã, terapeuta. Não precisa ser muita gente. Precisa ser gente certa.

O terceiro passo é nomear com o parceiro. Não para resolver. Para partilhar. Dizer o que está pesando. Ouvir o que está pesando para ele. Reconhecer que a dor é compartilhada, mesmo que cada um sinta de um jeito.

O quarto passo é buscar acompanhamento clínico quando os sinais começam a se acumular. A psicoterapia, nesse contexto, não vai te dar o filho que falta. Vai te ajudar a sustentar o luto sem que ele esvazie a vida que você já tem.

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O que eu digo, em consultório, para quem chega com essa dor

Que a sua gratidão é verdadeira. Que o seu luto é verdadeiro. Que os dois moram dentro de você ao mesmo tempo, e isso não é contradição, é complexidade humana.

Que você não precisa pedir desculpa por desejar mais. Que você não está sendo ingrata. Que o filho que está aqui não é menos amado por você sentir falta do filho que ainda não veio.

E que esse luto, mesmo invisível para o mundo, é visível em consultório, é visível em terapia, e merece o mesmo cuidado que qualquer outra dor profunda. Você não está sozinha. E você não precisa carregar isso sem ajuda.

Perguntas frequentes

O que é infertilidade secundária?
É a dificuldade em conceber ou levar uma gravidez adiante depois de já ter tido um filho. Pode acontecer mesmo com gestações anteriores tranquilas, e envolve fatores físicos, hormonais, emocionais e relacionais.
Por que dói tanto se eu já tenho um filho?
Porque a dor da infertilidade não é resolvida pelo filho que já existe. Você ama profundamente quem está aqui e, ao mesmo tempo, sente falta de quem você imaginou que viria. As duas coisas convivem, e isso não diminui o amor pelo seu filho.
É normal sentir culpa por querer outro filho?
É comum, mas não é justo com você. Desejar ampliar a família é legítimo, e sentir tristeza pela demora ou pela perda também é legítimo. A culpa entra quando você começa a acreditar que não tem direito de sofrer, e esse é o ponto que mais adoece.
Como conversar sobre isso com o parceiro?
Começando por nomear o que dói antes de pedir solução. Muitos casais entram em conflito porque um quer falar e o outro quer resolver. Reconhecer que a dor é dos dois, mesmo que cada um sinta de um jeito, costuma destravar a conversa e proteger a intimidade.
Quando procurar ajuda psicológica?
Quando o sofrimento começa a invadir o sono, o trabalho, a relação com o filho que já está aqui ou a intimidade do casal. Também quando a culpa por sentir tristeza ficar maior do que a tristeza em si. Acompanhamento clínico ajuda a separar o luto do julgamento.
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