Inteligência Emocional

Pare de tirar a anestesia antes de cuidar da ferida

Por que exigir que a pessoa pare o comportamento antes de tratar a dor está, há quase cem anos, na ordem errada

Mirian Pereira9 min de leitura
Fotografia editorial relacionada ao artigo: Pare de tirar a anestesia antes de cuidar da ferida

Em consultório, uma mulher me disse, depois de oito tentativas de parar de beber: "Eu consigo ficar três meses sem álcool. O que eu não consigo é ficar três meses comigo mesma."

Era a frase mais honesta que ouvi sobre vício naquele ano. E denunciava, sem precisar de estudo nenhum, o erro de fundo de quase tudo que se faz em saúde mental quando o assunto é comportamento repetitivo: a gente trata o sintoma e manda a pessoa esperar pra cuidar da causa.

Atendendo mulheres há mais de vinte e cinco anos, vi esse roteiro se repetir tantas vezes que parou de me surpreender. A pessoa chega com um comportamento que está estragando a vida dela, álcool, comida, relacionamento, compras, trabalho, qualquer coisa que sirva de fuga, e ouve, em algum momento, a mesma sentença disfarçada de cuidado: primeiro você para, depois a gente cuida do resto. Como se o resto fosse acessório. Como se o comportamento existisse no vácuo.

A dor é a raiz. O comportamento é só o que aparece na superfície porque a raiz não está sendo tratada.

De onde veio essa ordem invertida

Por quase um século, o cuidado com dependência funcionou numa sequência simples. Primeiro tira a substância, depois, quando a pessoa estiver estável, ela ganha o direito de mexer no que dói por baixo.

A lógica parecia razoável. Mexer em trauma é intenso. Pedir pra alguém recém-sóbrio abrir feridas antigas parecia arriscado, parecia operar quem ainda estava sangrando. Então a área construiu uma sala de espera e jogou a dor lá dentro.

O problema é que essa sala de espera virou o lugar onde o dano se aprofunda. Enquanto a pessoa fica "estabilizando", a culpa segue intacta, a vergonha segue intacta, a desregulação emocional segue intacta. E aí a gente se surpreende quando ela abandona o tratamento ou recai.

Não é falha de caráter. É um problema de ordem.

O que o comportamento estava fazendo ali

Pensa comigo. Por que alguém bebe todo dia? Por que alguém come até passar mal? Por que alguém entra no mesmo tipo de relacionamento três, quatro, cinco vezes seguidas?

Não é falta de informação. Ninguém precisa de palestra pra saber que beber demais faz mal. O comportamento está ali porque resolve, no curto prazo, uma dor que a pessoa não sabe lidar de outro jeito. Ele anestesia, distrai, preenche, silencia.

Quando você tira o comportamento sem cuidar do que ele anestesiava, você não devolve saúde pra pessoa. Você devolve a dor crua, sem ferramenta nenhuma. E aí ela faz a única coisa que sabe fazer: volta pra anestesia que conhece.

É exatamente o que vejo em consultório quando recebo alguém que já passou por cinco internações, três grupos, dois programas. A pessoa não fracassou em parar. Ela parou várias vezes. O que ninguém tratou foi a razão que fez ela começar.

O que a pesquisa recente mostrou

Uma equipe clínica acompanhou, por nove meses, mais de duzentas pessoas que tinham, ao mesmo tempo, trauma e comportamento de dependência. Dividiu em dois grupos. Um recebeu tratamento de trauma junto com o tratamento de comportamento, ao mesmo tempo. O outro fez o caminho clássico: primeiro estabilizar, depois mexer no trauma.

O grupo simultâneo melhorou mais. Em todos os marcadores que importam. Culpa, vergonha, desregulação emocional, sofrimento geral. Tudo o que o modelo antigo mandava adiar, foi exatamente onde o tratamento simultâneo ganhou.

E tem um detalhe que precisa ser dito alto: boa parte da desvantagem do grupo sequencial veio do próprio tempo de espera. Enquanto eles esperavam ficar "estáveis" pra começar a trabalhar o que doía, a dor não diminuía sozinha. A sala de espera não estabiliza ninguém. A sala de espera só adia.

E o medo que sustentava a ordem antiga, de que mexer no trauma ia destruir a sobriedade frágil, simplesmente não se confirmou. Os indicadores de uso não pioraram. O que aconteceu foi o oposto: as pessoas ficaram mais no tratamento quando se sentiam cuidadas no que doía, não cobradas no que aparecia.

Isso é maior do que vício em substância

Você não precisa ter dependência química pra esse princípio te atravessar.

Todo comportamento que você repete sem entender por quê está cumprindo alguma função. A comida que você ataca às onze da noite. O celular que você não consegue largar. O relacionamento que você sabe que faz mal e mesmo assim volta. O trabalho que você usa pra não ter que sentir nada. A briga que você compra com sua mãe toda vez que visita ela.

Nenhum desses comportamentos existe à toa. Cada um deles é uma resposta a algo que dói por baixo. E enquanto você tenta resolver pelo combate ("nesse ano eu paro"), você está fazendo o mesmo erro que a sala de espera fazia: tirando a anestesia sem cuidar da ferida.

Em sessão eu costumo dizer: o comportamento é a fumaça, não o fogo. Apagar a fumaça com um pano molhado parece resolver, mas o fogo está intacto.

A diferença entre cortar e curar

Cortar um comportamento é uma decisão de superfície. Funciona por um tempo, geralmente até a próxima crise emocional grande. A pessoa "está bem" enquanto a vida está calma e desmorona no primeiro estresse, na primeira perda, na primeira frustração.

Curar é diferente. Curar é entender qual buraco aquele comportamento estava tampando, sentir o que tem dentro do buraco, e construir formas novas de lidar com isso. Quando você cura, o comportamento perde a função. E o que perde a função tende a ir embora sem briga.

Isso é o que faz a diferença entre alguém que tenta parar a vida inteira e alguém que muda de verdade. Não é força de vontade. Não é melhor método. É ter recebido, em algum momento, o cuidado certo no lugar certo, ao mesmo tempo em que mexia no comportamento.

Essa lógica aparece em outros padrões também. Vi em texto recente como a dor emocional não é a mesma coisa que tristeza e exige outro tipo de leitura e como toda emoção carrega informação que a maioria desliga antes de escutar. O comportamento repetitivo está dentro dessa mesma família. Ele é informação. Está dizendo alguma coisa. Cortar antes de escutar é desperdiçar o que ele veio comunicar.

Sinais de que você está tratando fumaça, não fogo

Pra ajudar você a olhar pra dentro com mais honestidade, deixo uma comparação que uso em sessão.

Você está cortando fumaça quandoVocê está cuidando do fogo quando
Promete parar e dura dias, depois voltaEntende por que começou e o que aquilo tampava
Se sente culpada toda vez que recaiTrata recaída como dado, não como falha moral
Quer apenas que o comportamento sumaQuer entender o que vem antes do impulso
Foca em quanto tempo está limpaFoca em quanto consegue estar consigo
Esconde porque tem vergonhaConta porque sabe que esconder mantém preso

A primeira coluna é onde a maioria mora. A segunda é onde a mudança real começa a acontecer.

A pessoa que muda não é a que conseguiu cortar. É a que conseguiu se aproximar do que estava tentando não sentir.

O papel da vergonha nessa equação

Tem uma camada que precisa ser dita, principalmente para as mulheres que me leem: grande parte do que segura o ciclo no lugar é vergonha.

Vergonha de ter chegado onde chegou. Vergonha de não ter conseguido sozinha. Vergonha de ainda querer aquilo. Vergonha de estar repetindo, em terapia, o mesmo padrão que você já chorou contando pra três amigas diferentes.

O modelo antigo, ao mandar a pessoa parar primeiro, reforça a vergonha. Diz, mesmo sem palavras, que a pessoa é o problema, e que o problema só pode ser tratado depois que ela "consertar" a parte mais visível de si.

O modelo que funciona faz o contrário. Trata o comportamento como sintoma, não como identidade. Olha pra mulher que bebe e enxerga uma mulher inteira, com história, com dor, com motivo. E essa diferença, sutil em palavra e gigantesca em efeito, é o que solta o nó.

Costumo dizer em sessão que ninguém se cura no lugar onde se sente envergonhada. Cura precisa de testemunha que não julga. Quando a pessoa encontra esse lugar, ela para de gastar energia em esconder e começa a gastar energia em entender.

Jornada PUVE

Mexer no comportamento sem cuidar da dor é tirar a anestesia da ferida aberta.

Na Jornada PUVE, mulheres aprendem a olhar para os próprios comportamentos repetitivos como sinais de uma dor mais antiga, e a tratar essa dor com o cuidado que ela sempre pediu, em vez de cortar o sintoma e esperar que a raiz se resolva sozinha.

Quero fazer a Jornada →

O que fazer essa semana

Se você se reconheceu em algum lugar desse texto, deixo três movimentos pequenos que cabem dentro de uma semana comum.

Primeiro, escolha um comportamento que você sabe que repete e que não te faz bem. Não precisa ser o pior. Precisa ser um que você consegue olhar de frente. Pergunte, sem se julgar: o que esse comportamento estava tentando me dar? Conforto? Distração? Anestesia? Sensação de controle? Companhia?

Segundo, repare em que momento ele aparece. Não no momento em que você executa. No momento anterior. O que estava sentindo dez minutos antes de abrir a geladeira, pegar o celular, mandar a mensagem, abrir a garrafa? Esse momento anterior é onde mora o fogo.

Terceiro, se você está tentando parar algo importante sozinha há tempo demais, considere que talvez não falte método. Talvez falte espaço pra cuidar do que está embaixo, ao mesmo tempo em que se cuida do que aparece. Procurar acompanhamento clínico que olhe os dois ao mesmo tempo é, hoje, o caminho mais sustentado pela pesquisa e pelo que vejo, todos os dias, em consultório.

Você não precisa parar pra merecer cuidado. Você precisa de cuidado pra conseguir parar. A ordem é essa. Sempre foi.

Perguntas frequentes

Não é perigoso mexer na dor antes da pessoa parar o comportamento?
Por quase um século a área acreditou que sim, mas pesquisas clínicas recentes mostram que tratar dor emocional e comportamento ao mesmo tempo não piora o quadro, melhora o engajamento e reduz culpa e vergonha mais rápido do que esperar.
Isso vale só para vício em substância?
Não. O mesmo princípio se aplica a qualquer comportamento repetitivo que serve como anestesia, como compras compulsivas, comida emocional, relacionamentos que machucam, exercício excessivo, trabalho como fuga. Todo comportamento persistente cumpre uma função, e ignorar a função é o que mantém a pessoa presa.
O que fazer quando alguém que amo está nesse ciclo?
Pare de exigir que a pessoa pare antes de receber acolhimento. Mostre interesse pela dor que está embaixo, não pelo comportamento que aparece. Procurar acompanhamento clínico que olhe os dois ao mesmo tempo, dor e comportamento, é o caminho que mais costuma sustentar mudança real.
Por que a vergonha aparece tanto nesse tema?
Porque a maioria dos modelos de tratamento entrega à pessoa a mensagem de que ela é o problema, quando o comportamento é, na verdade, a tentativa de sobreviver a um problema anterior. Quando trocamos vergonha por entendimento, a pessoa para de se esconder e começa a se tratar.
Gostou do artigo?

Compartilhe com quem precisa ler isso.

Jornada PUVE

A Jornada PUVE não é um curso.

É uma sequência de treinamentos presenciais para você se tornar a versão de si mesmo que o seu propósito exige. Intensidade distorce o tempo e é isso que você encontra aqui. Vagas limitadas, turmas exclusivas e acompanhamento individual. Desde 1998 formando líderes.

Quero fazer a Jornada →