PNL

Pare de reclamar. Comece a usar palavras que constroem o que você quer viver

As palavras que saem da sua boca todo dia não descrevem sua realidade. Elas projetam a próxima.

Júlio Pereira7 min de leitura
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Para um instante. Lembra da última conversa que você teve no almoço, no Uber, no grupo da família.

Quanto tempo dela foi gasto reclamando.

Do trânsito, do governo, do chefe, do clima, do filho, do mercado, do parceiro, do corpo, do sono, do cansaço, da agenda, da economia, da equipe.

Agora a pergunta dura: alguma dessas reclamações mudou alguma coisa.

As palavras que você repete todo dia não estão descrevendo sua vida. Estão construindo a próxima versão dela.

Em mais de uma década formando líderes e empresários, observo um padrão que se repete com precisão quase incômoda. As pessoas que estão estagnadas usam um vocabulário específico. As pessoas que estão crescendo usam outro. E quase nunca elas percebem isso enquanto está acontecendo.

A boa notícia é que vocabulário se troca. A má notícia é que ninguém faz isso por você.

Reclamar não é desabafo, é instalação

Existe uma diferença prática entre nomear uma dor e instalar uma identidade em torno dela.

Nomear é dizer uma vez para a pessoa certa, na hora certa, com o objetivo de pensar junto sobre o que fazer. Isso é saudável. Faz parte do processamento emocional.

Instalar é diferente. Instalar é repetir a mesma queixa pela centésima vez, no quinto interlocutor da semana, sem nenhuma intenção de mudar a situação. Cada repetição grava o circuito neural mais fundo. O cérebro, que não é estúpido, entende o recado: essa é uma queixa importante, é melhor eu continuar coletando evidências dela.

E é isso que ele faz. Você começa a notar mais o trânsito ruim, mais a falha do chefe, mais o defeito do parceiro. Não porque o mundo piorou. Porque seu filtro perceptivo foi treinado para isso.

Em PNL, isso tem nome técnico. É um dos princípios fundamentais do funcionamento da mente: aquilo que recebe atenção repetida cresce, aquilo que não recebe atenção definha. Você está usando essa lei o tempo todo, só que normalmente a favor das coisas erradas.

O cérebro escuta o que você fala, mesmo quando você não está prestando atenção

Tem uma confusão que precisa ser desfeita aqui. Muita gente acha que pensamento e linguagem são duas coisas separadas, e que o que importa é o que você pensa, não o que você fala.

Errado.

A neurociência mostra com clareza que a linguagem não é uma camada secundária do pensamento. Ela é parte da fabricação do pensamento. Quando você verbaliza algo, ativa redes neurais associadas àquela palavra, àquele conceito, àquela emoção. Repetir uma frase é um exercício físico para o cérebro, e como todo exercício, ele cria adaptação.

Em sala de mentoria costumo dizer: me mostre o vocabulário que você usa nos seus piores dias, eu te mostro o seu teto de crescimento dos próximos doze meses.

Não é exagero. É observação repetida.

O preço invisível da reclamação crônica

Reclamar parece grátis. Não é.

Toda queixa repetida custa três coisas ao mesmo tempo. Custa energia mental, porque o cérebro precisa simular a situação ruim mais uma vez. Custa qualidade de vínculo, porque as pessoas em volta começam a evitar a conversa. E custa autoridade interna, porque uma parte de você sabe que está reclamando em vez de agir, e isso corrói a sua autoconfiança silenciosamente.

A pessoa que reclama o tempo todo não está mais consciente do problema que as outras. Está apenas mais paralisada diante dele.

E aqui aparece um paradoxo. Quanto mais a pessoa reclama, mais convencida fica de que o problema é externo e não tem solução. A reclamação não é o resultado do problema, é a manutenção dele. Esse padrão se conecta direto com a forma como suas crenças filtram o que você consegue enxergar como possível, e enquanto ele estiver ativo, ferramenta nenhuma de produtividade vai funcionar.

A troca que muda o jogo

Existe uma operação simples que mexe a estrutura inteira. É a troca consciente de frases que fecham porta por frases que abrem.

A frase que fecha porta soa assim: eu não consigo, eu não sou bom nisso, eu não tenho tempo, eu sou assim mesmo, não dá pra mudar, isso não funciona pra mim.

A frase que abre porta soa assim: eu ainda não sei como, eu não tenho prática suficiente, eu não priorizei isso até agora, eu venho operando assim mas posso mudar, isso ainda não funcionou pra mim do jeito que tentei.

Olhe as duas listas. Os fatos são iguais. A diferença é só uma: a segunda lista mantém a porta entreaberta. E é por essa fresta que entra a ação.

Vocabulário que paralisaVocabulário que move
Eu não consigoEu ainda não sei como
Não tenho tempoIsso não é prioridade hoje
Eu sou assimVenho operando assim, posso ajustar
Não dáNão dá do jeito que tentei
Sempre dá erradoJá deu errado essas vezes, e aprendi isso
Não tem soluçãoNão encontrei a solução ainda
Ele me irritaEu reajo a esse comportamento dele

Repare na última linha. É a mais fina de todas. Mudar de ele me irrita para eu reajo a esse comportamento dele devolve agência. Você sai de vítima de uma circunstância e vira agente de uma resposta. E só quem é agente pode mudar a resposta.

A pessoa não fala mal porque pensa mal. Ela pensa mal porque vem falando mal há anos e o cérebro tomou aquilo como verdade.

Como começar essa troca esta semana

Não é mudança de personalidade. É mudança de hábito linguístico. E hábito se muda com método, não com força de vontade.

Primeiro, escolha três frases que você sabe que repete demais. Tipo eu não dou conta, esse cara me tira do sério, hoje tá impossível. Escreva elas num papel.

Segundo, traduza cada uma para uma versão que mantenha a verdade mas devolva agência. Não dou conta vira não dou conta sozinho neste prazo. Esse cara me tira do sério vira eu deixo esse cara mexer comigo demais. Hoje tá impossível vira hoje tá mais cheio do que o normal.

Terceiro, faça uma combinação com você mesmo: toda vez que a frase antiga sair, você se corrige na hora, em voz alta se possível. Não em tom de autoflagelo, em tom de treino. Você está reprogramando o circuito.

Por duas semanas, esse processo vai parecer artificial. Depois disso, vira segunda natureza. E aí o estado emocional padrão começa a mudar sozinho, porque o cérebro está sendo alimentado com outro dado. Esse é o mesmo princípio que opera quando você aprende a pegar o significado de um evento e reconstruí-lo em tempo real, mudando o que sente sem mentir sobre o que aconteceu.

A linguagem corporal também é linguagem

Falar diferente não é só mexer na boca. O corpo precisa entrar junto.

Você pode ensaiar a melhor frase do mundo, mas se o ombro está caído, o olhar no chão e o tom de voz arrastado, o cérebro de quem ouve, incluindo o seu, vai descartar o conteúdo verbal e ficar com o conteúdo corporal. Postura é mensagem. Tom é mensagem. Ritmo de respiração é mensagem.

Em mentoria, observo que líderes que aprendem a coordenar palavra, voz e corpo passam a ser ouvidos de outro jeito, não porque ficaram mais inteligentes, mas porque ficaram mais coerentes. E coerência é o que o cérebro humano mais respeita.

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A escolha que ninguém faz por você

A maioria das pessoas vai morrer com o mesmo vocabulário de queixa que carrega desde os vinte anos. Não precisa ser você.

A troca não é grandiosa. É uma frase de cada vez, durante semanas seguidas. É chato no começo, é estranho no meio, é libertador no fim. E a partir de certo ponto, você não consegue mais voltar, porque o cérebro já entendeu que existe outro modo de funcionar.

Esta semana, escolhe uma frase. Uma só. Aquela que você sabe que repete demais e que não te leva a lugar nenhum. Decide qual vai ser a versão nova dela. E começa hoje.

A vida que você quer viver começa pela primeira palavra que sai da sua boca amanhã de manhã.

Perguntas frequentes

Reclamar não é uma forma legítima de desabafar?
Existe diferença entre nomear uma dor uma vez para alguém que possa ajudar e repetir a mesma queixa por meses para qualquer um que escute. A primeira é elaboração. A segunda é instalação. Toda vez que você verbaliza a mesma queixa, fortalece o circuito neural que produz aquela leitura da realidade. Desabafe com critério, escolha o interlocutor, e depois mova.
Substituir frases negativas por positivas não é só pensamento positivo disfarçado?
Não, se a substituição mantiver a verdade dos fatos. Pensamento positivo nega o problema. Linguagem precisa reconhece o problema e abre caminho para ação. Eu não consigo vira eu ainda não sei como, e não vira está tudo ótimo. A diferença é que a primeira frase fecha a porta, a segunda mostra uma porta entreaberta. Ambas são verdadeiras, mas só uma autoriza movimento.
Em quanto tempo se percebe diferença ao mudar o vocabulário?
Em sala de mentoria observo mudança perceptível em duas a quatro semanas, quando a pessoa faz a troca de forma consistente. Não é mágica, é treino. O cérebro precisa repetir o novo padrão até automatizar. Os primeiros dias parecem artificiais, depois soam normais, depois mudam o estado emocional padrão. A pressa atrapalha, a constância faz.
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