Sonhos foram feitos para serem realizados
Trinta e seis anos depois do meu primeiro show, eu estava lá de novo, agora com cabelo diferente, corpo diferente, vida diferente. E entendi algumas coisas sobre sonhos que só o tempo consegue ensinar.

Em 1990, eu tinha vinte e poucos anos, cabelo comprido, um vestido preto que hoje eu não usaria mais, e uma certeza que só quem tem vinte e poucos anos consegue ter. Estava indo ver Bon Jovi no Morumbi. Meu primeiro show grande. Meu primeiro sonho realizado sem pedir permissão pra ninguém.
Ontem, trinta e seis anos depois, entrei numa arena de novo. Cabelo diferente. Corpo diferente. Vida diferente. E ele estava lá também, no palco, com sessenta e dois anos, cabelo grisalho, voz que quase perdeu e reencontrou, cantando as músicas que embalaram cada uma das minhas décadas.
Sentei na cadeira e chorei sem grande drama. Não era saudade. Era outra coisa. Era a percepção, silenciosa, de que alguns sonhos foram feitos para serem realizados. E que, entre a menina de 1990 e a mulher de 2026, coube muita coisa. Também caiu muita coisa. E alguma coisa, teimosamente, permaneceu.
Sonhos que duram décadas não são os sonhos mais fortes. São os que aprenderam a envelhecer com a gente.
O sonho não é o que você pensa que é
Em consultório, atendendo mulheres há mais de vinte e cinco anos, aprendi uma coisa que só o tempo ensina. O sonho quase nunca é o objeto. Uma mulher pode passar vinte anos dizendo que quer casar. O sonho não era o casamento. Era o pertencimento. Outra pode passar trinta anos dizendo que quer voltar a pintar. O sonho não era a tela. Era o espaço interior de criar sem cobrança.
Quando o sonho vira só o objeto, ele adoece. Quando ele vira o que o objeto representa, ele sobrevive a qualquer fase.
Ontem, olhando aquele palco, entendi. O sonho da menina de 1990 não era ver Bon Jovi. Era saber que existia um mundo maior do que o quarteirão dela. Era sentir que a vida cabia mais do que o que estava desenhado. Era a certeza, teimosa e imaginária, de que sonhos foram feitos pra ser realizados.
E aquela menina realizou. Aquele show naquela noite, no calor abafado do Morumbi, foi a primeira vez que ela testou, no corpo, que sonho realizado tem gosto de possibilidade.
Toda vez que uma mulher, em consultório, me diz que perdeu contato com o próprio sonho, eu volto pra essa cena. Porque quase sempre o sonho não sumiu. Ficou pequeno, ficou coberto, ficou esquecido em algum armário de responsabilidades. Basta uma cena inesperada, um show, uma música, um cheiro, pra ele voltar dizendo: continuo aqui.
O que faz um sonho durar
Existe uma pergunta clínica que gosto de deixar em sessão com mulheres em fase de reencontro com sonhos antigos. O que dessa vida que você construiu ainda é seu, e o que foi virando obrigação?
Sonhos que duram décadas costumam ter três características em comum. Reconheço porque as vi em mim, e vi em muitas mulheres em consultório.
1. Capacidade de reinvenção. O sonho de ser mãe que a mulher de vinte teve não é o mesmo que a mulher de quarenta viveu. O sonho de escrever que uma tinha aos vinte cinco pode virar o de traduzir aos cinquenta. Sonho que não se reinventa não sobrevive à mudança que a vida traz.
2. Alguém com quem compartilhar. Sonho silenciado morre antes de sonho falado. Uma amiga que sabe do seu sonho, um marido que respeita, uma terapeuta que escuta, um filho crescido que pergunta. Ter alguém segurando com você é o que impede o sonho de sumir nas fases de cansaço.
3. Coragem de aparecer de novo depois da queda. Todo sonho que dura passa por queda. Um filho que sai da rota. Um projeto que falha. Um corpo que adoece. Uma perda que reorganiza tudo. Sonho verdadeiro sobrevive à queda porque sabe reaparecer, mesmo com cicatriz, mesmo em outro formato.
O que a banda também ensinou
Esse show me fez olhar pra trajetória deles com olhar clínico, não só de fã.
Eles começaram em Nova Jersey, em bares, no começo dos anos oitenta. Ninguém apostava. Levaram alguns anos até a primeira faixa que tocou nas rádios. Depois, um álbum em 1986 que virou o mundo deles. Vieram os anos noventa, cheios de tudo. Vieram os dois mil, com o público mais velho, o mundo mudando. Guitarrista histórico saiu em 2013 depois de décadas. Vozes questionaram se aquilo ainda fazia sentido.
Em 2022, o vocalista descobriu que uma corda vocal estava atrofiando. Cirurgia. Silêncio. Recuperação lenta. Reaprender a cantar depois dos sessenta.
E ontem, sessenta e dois anos, ele estava ali. Cantando em outro tom. Aceitando limites que o corpo impôs. Contornando o que não sustenta mais como antes. Mas ali.
Isso não é sorte. Isso é sonho que aprendeu a envelhecer.
Em cada fase, o sonho deles teve que virar outra coisa. Ser banda jovem em bar não é o mesmo que ser banda em estádio em 1990. Não é o mesmo que ser banda em turnê aos sessenta em 2026. Cada versão do sonho pediu coragem diferente.
E cada versão da mulher que sou também pediu coragem diferente pra continuar sonhando.
O que 1990 sabia e o que 2026 sabe
A mulher de 1990 tinha certeza que sonho era destino. Sonhou, correu atrás, aconteceu. Fim.
A mulher de 2026 sabe que sonho é conversa. Uma conversa longa, com pausas, com brigas, com desvios, com desculpas de reencontro, com fases silenciosas.
A menina de 1990 não sabia que a vida ia me pedir renegociar quase todos os sonhos algumas vezes.
- Que a maternidade ia deslocar sonhos profissionais.
- Que o casamento ia pedir ajuste em sonhos íntimos.
- Que a perda de gente amada ia reordenar prioridades que pareciam eternas.
- Que o próprio corpo ia mudar as regras de jogos que eu achava que sabia jogar.
A mulher de 2026 sabe. E ainda assim continua sonhando. Talvez até com mais consciência do que era possível aos vinte.
Esse movimento conversa com o que eu escrevo com frequência aqui em consultório: você não precisa ser extraordinária pra valer o espaço que ocupa. Um sonho digno não é aquele que impressiona ninguém. É aquele que continua fazendo sentido pra você, mesmo depois que a plateia foi embora.
Sonhos que a gente adia demais
Em sessão, existe uma categoria de sonhos que me preocupa. O sonho eternamente adiado.
- A mulher que dizia que quando os filhos crescessem, ela ia viajar. Os filhos cresceram. Ela não viajou.
- A que dizia que quando a empresa estabilizasse, ia voltar a estudar. Estabilizou. Não voltou.
- A que dizia que quando aposentasse, escreveria aquele livro. Aposentou. O livro segue engavetado.
Não é preguiça. Não é falta de tempo. É medo. Sonho antigo, revisitado agora, pode não caber mais. Pode ter que ser reinventado. Pode desapontar. É mais seguro mantê-lo intacto, guardado, protegido do teste da vida real.
Em consultório, quando uma mulher chega falando de sonhos antigos com voz baixa, sempre pergunto: qual é a menor versão desse sonho que você poderia começar a viver amanhã? Não a maior. A menor. Cinco páginas do livro em vez do livro inteiro. Uma viagem curta em vez da volta ao mundo. Uma aula em vez do curso completo.
Sonho grande, adiado, apodrece. Sonho pequeno, começado, geralmente cresce sozinho.
“Um sonho pequeno e sustentado vale mais do que um sonho grande e adiado. Porque um está vivo. O outro é só uma promessa velha.
”
O que ficou depois que a última música parou
Quando o show acabou e as luzes se acenderam, eu fiquei sentada mais alguns minutos, olhando o palco vazio. Não tinha pressa de sair. As pessoas ao redor começaram a se levantar. Eu ainda estava com a menina de 1990 sentada aqui do meu lado.
Falei baixinho pra ela. Você conseguiu. Não sabia como ia ser, mas conseguiu. E olha só. Voltamos juntas.
Ela sorriu, com aquele sorriso de quem confiou desde sempre que sonhos foram feitos pra ser realizados. E foi embora.
A mulher de 2026 saiu do estádio pensando em cada uma das mulheres que atendo, em cada uma que ainda não deu à sua menina interna essa mesma conversa. A conversa que reconhece que muitos sonhos foram realizados, alguns foram redesenhados, outros ainda esperam. E que o silêncio em torno de tudo isso é o que pesa mais do que a lista de pendências em si.
Sonhos que atravessam décadas pedem cuidado adulto.
Na Jornada PUVE, mulheres se reúnem em ciclos de mentoria pra revisitar sonhos antigos, reinventar os que ainda cabem, e sepultar com dignidade os que já cumpriram sua função. Inscrições abertas.
Quero fazer a Jornada →Onde começar essa semana
Se você tem um sonho antigo esperando você em algum lugar, faça uma coisa pequena essa semana.
- Escreva o sonho num papel. Sem julgar. Sem editar. Só escreva.
- Depois pergunte: o que ele quer de mim agora, em 2026, na versão adulta que sou? Não em 1990. Não em 2000. Agora.
- Escuta a resposta com carinho. Talvez ele peça uma reinvenção. Talvez peça um começo pequeno. Talvez peça uma conversa com alguém.
- Faça a menor coisa possível na direção dele. Uma. Ainda essa semana.
Sonhos foram feitos, sim, pra ser realizados. Mas realizados no ritmo da vida real, com a mulher que você virou, no tempo que você tem.
Não deixe pra amanhã o que a menina de dentro de você já está pedindo há muito tempo.
Perguntas frequentes
Como saber se um sonho ainda faz sentido pra mim ou se ficou preso numa versão antiga da minha vida?
E se eu descobrir, aos quarenta ou cinquenta, que perdi anos correndo atrás do sonho errado?
Como cuidar de um sonho ao longo de décadas sem ele adoecer ou desaparecer?
A Jornada PUVE não é um curso.
É uma sequência de treinamentos presenciais para você se tornar a versão de si mesmo que o seu propósito exige. Intensidade distorce o tempo e é isso que você encontra aqui. Vagas limitadas, turmas exclusivas e acompanhamento individual. Desde 1998 formando líderes.
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