Resiliência

Nem toda vontade de desistir é um pedido para parar

Quem chega ao consultório decidido a largar tudo quase nunca está no fim. Está exausto. E exaustão e fim pedem coisas opostas.

Mirian Pereira8 min de leitura
Montanhas marrons sob um céu claro, o tipo de subida longa que só termina quando a gente continua andando.

A frase quase sempre chega no meio da sessão, com a voz mais baixa que o resto da conversa: "eu acho que eu não aguento mais".

Ela vem acompanhada de um roteiro parecido, quase palavra por palavra. A pessoa diz que se enganou. Que aquilo não era para ela. Que perdeu tempo. Que devia ter escutado quem avisou. E termina perguntando, com um cansaço que a gente escuta antes de entender: "será que eu paro?"

Eu quase nunca respondo essa pergunta na hora.

Não porque eu tenha uma resposta guardada, mas porque, atendendo há mais de duas décadas, aprendi uma coisa sobre o momento em que essa pergunta aparece. Ela raramente chega num domingo descansado. Ela chega na quinta-feira da terceira semana difícil, depois de noites mal dormidas, no meio de uma dor que já dura tempo demais.

E uma pergunta grande, feita no pior dia, quase sempre recebe uma resposta pequena.

Nem toda vontade de desistir significa que você deve desistir. Às vezes ela é só um pedido de pausa que você aprendeu a escutar como sentença.

A vontade de desistir quase nunca aparece em dia bom

Eu vivi isso de forma bem literal.

Quando fiz o Caminho de Santiago de Compostela, enfrentei, logo na saída de uma cidade pequena, uma subida daquelas que parecem não acabar nunca. Fazia quase 37 graus. Não havia sombra em trecho nenhum. A mochila pesava nos joelhos, o corpo doía em lugares que eu nem sabia nomear.

E os pensamentos chegaram todos juntos: o que eu estou fazendo aqui? Por que eu tive essa ideia? Por que sair do meu conforto para passar por isso?

Vale reparar em uma coisa. A ideia daquela viagem tinha sido minha, era um sonho que eu guardava havia quinze anos, e ainda assim, naquela subida, eu duvidei dela inteira. Não porque o sonho tivesse deixado de fazer sentido. Porque eu estava exausta.

É exatamente isso que a mente faz. Quando estamos confortáveis, tudo parece coerente. Quando estamos cansados, com dor e diante de um desafio, começamos a questionar até as decisões que mais desejávamos tomar. O cansaço não inventa problemas novos, ele reescreve os antigos com uma tinta mais escura.

Por isso, a primeira coisa que eu costumo devolver em sessão não é uma resposta. É uma data. Quando foi a última vez que você descansou de verdade? Não fim de semana com celular na mão. Descanso mesmo.

Na maioria das vezes, a pessoa não sabe responder.

As três camadas de qualquer desistência

Quem caminha longas distâncias descreve um percurso emocional que se repete, e ele vale para muito mais coisa do que caminhada.

  1. 01
    O corpo

    Primeiro vêm as dores, o cansaço, as bolhas, o sono ruim. É a camada mais barulhenta e a que mais engana, porque grita antes de qualquer outra.

  2. 02
    A mente

    Depois vêm as dúvidas, os questionamentos, a vontade de parar. Aqui a pessoa não está avaliando o projeto. Está negociando com o desconforto.

  3. 03
    O motivo

    Se você continua, encontra o motivo real que te levou até ali. É a camada mais silenciosa, e a única que responde de verdade se vale ou não continuar.

A sequência que quase toda desistência percorre. O problema é que a maioria das decisões é tomada na segunda camada.

A imensa maioria das desistências acontece na segunda camada, e é ali que elas ficam caras. A pessoa para no meio da negociação com o desconforto, antes de chegar ao lugar onde a resposta de fato mora.

Não é fraqueza. É cronologia. A dor chega primeiro e fala mais alto. O motivo chega por último e fala baixo. Quem decide pela ordem de chegada decide sempre pelo mais barulhento.

Como separar cansaço de limite

Essa é a distinção que muda tudo, e ela é mais simples do que parece. Cansaço responde a descanso. Limite não responde.

Quando alguém me traz essa dúvida, eu costumo caminhar por algumas perguntas antes de qualquer decisão:

  • Há quanto tempo você não dorme bem? Sono ruim por semanas seguidas prejudica a avaliação de risco e de futuro. Você não está pessimista. Você está sem dormir.
  • A vontade de parar aparece sempre no mesmo estado? Se ela só aparece nos dias de exaustão e some nos dias bons, ela é sintoma, não conclusão.
  • Você quer parar disso, ou quer parar de tudo? Vontade específica costuma ser informação. Vontade generalizada costuma ser esgotamento, e às vezes pede um cuidado maior que uma decisão.
  • Se você tivesse duas semanas de descanso real, voltaria? Essa é a pergunta que mais separa as duas coisas.
  • O que exatamente ficou insuportável? Se você não consegue nomear, provavelmente ainda não é hora de decidir. É hora de descansar e olhar de novo.

Reparo, com frequência, que a pessoa chega convencida de que precisa de coragem para largar, quando na verdade precisa de sono, comida decente e uma semana sem cobrança. E engolir o que se sente por tempo demais cobra o preço no corpo, o que torna tudo ainda mais difícil de enxergar com clareza.

Cansaço muda com descanso. Limite não muda. Antes de decidir, descubra com qual dos dois você está lidando.

Existe desistência legítima, e ela merece respeito

Preciso dizer isso com todas as letras, porque a cultura da superação fez muita gente adoecer segurando o que já devia ter soltado.

Nem tudo merece ser continuado. Existem situações em que parar é a decisão madura, não a covarde:

  1. Quando o custo está saindo da sua saúde. Corpo cobrando, sono destruído, crises que não passam. Nenhum objetivo justifica isso de forma permanente.
  2. Quando o caminho passou a exigir que você viole algo que é seu. Valor, princípio, vínculo que importa. Chegar não compensa deixar de ser você no processo.
  3. Quando você já sabe a resposta e só está adiando a conversa. Aqui não falta clareza. Falta a coragem de comunicar.

A diferença entre essa desistência e a outra não está no ato de parar. Está no estado em que a decisão foi tomada. Uma nasce de avaliação, com a pessoa descansada e lúcida. A outra nasce de exaustão, e costuma ser irmã daquela impulsividade que parece coragem e quase sempre é fuga.

A pergunta certa, portanto, nunca foi "eu continuo ou eu paro". Foi: eu estou no meu limite, ou eu estou apenas sem descanso?

O que fazer quando a vontade chega

Naquela subida de 37 graus, eu não tomei nenhuma decisão. Fiz outra coisa, bem menos heroica.

Parei de olhar o quanto faltava. Passei a caminhar um passo de cada vez, sem calcular distância, sem projetar o dia inteiro. Só o próximo passo. Depois o seguinte. Até que o terreno ficou plano de novo, e a vontade de desistir tinha ido embora sozinha, sem que eu precisasse discutir com ela.

Mais adiante, naquele mesmo dia, paramos numa praça, tiramos as botas e encostamos as pernas numa árvore. Fiquei olhando para cima, sem fazer absolutamente nada, por uns dez minutos. E me peguei pensando quantas vezes eu tinha feito aquilo na vida. A resposta foi imediata: nunca.

Aqueles dez minutos me devolveram mais do que qualquer conversa comigo mesma teria devolvido. Não porque fossem mágicos, mas porque descanso é a única coisa que responde a cansaço.

Então o protocolo que eu ofereço em sessão é pouco impressionante, e é justamente por isso que funciona:

  1. Não decida nada hoje. Grandes decisões no pior dia são quase sempre revisadas depois, e a essa altura já custaram caro.
  2. Cuide do básico primeiro: sono, comida, água, um pouco de silêncio. Não é banal, é pré-requisito.
  3. Dê um único passo a mais amanhã, o menor possível, sem pensar no que falta.
  4. Só então reavalie. Se a vontade sumiu, era cansaço. Se ela continuou inteira depois do descanso, ela merece ser escutada com seriedade.

Vale lembrar que sonhos foram feitos para serem realizados, e que a maior parte deles morre num dia ruim, não por falta de capacidade. E vale olhar também para quem seguiu adiante depois de tudo indicar que era hora de sair de cena, porque quase nunca é sobre nunca ter vontade de parar. É sobre o que a pessoa faz com essa vontade quando ela chega.

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Uma última coisa

Contei essa subida com detalhe porque ela ficou comigo. Ela e outras dezenove histórias viraram um livro que escrevi sobre o Caminho de Santiago de Compostela, onde cada dia de caminhada acabou virando um aprendizado sobre a vida que a gente leva aqui, sem mochila nenhuma nas costas.

O que eu trouxe daquela viagem, e o que eu vejo confirmado em consultório toda semana, cabe em uma frase: nem sempre precisamos ser fortes o tempo todo, mas precisamos continuar acreditando que podemos seguir em frente.

Se hoje você está com essa vontade batendo, tenta o seguinte antes de qualquer decisão. Escreva num papel a coisa que você está prestes a abandonar. Do lado, escreva há quantos dias você não descansa de verdade.

Olhe para os dois números juntos.

Muita gente descobre ali que não estava querendo desistir. Estava só precisando parar um pouco.

Perguntas frequentes

Como sei se estou cansada ou se realmente chegou a hora de parar?
Um teste simples ajuda: se alguém te desse duas semanas de descanso de verdade, com sono em dia e a agenda vazia, você voltaria? Se a resposta é sim, você está cansada. Se a resposta continua sendo não mesmo descansada, aí a informação é outra. Cansaço muda com repouso. Limite não muda.
Sentir vontade de desistir significa que eu escolhi errado?
Não. A vontade de desistir aparece em praticamente todo projeto que exige esforço prolongado, inclusive nos que a pessoa mais quis. Quando estamos confortáveis, tudo parece fazer sentido. Quando estamos com dor, começamos a questionar até as decisões que mais desejávamos tomar. Isso é o corpo falando, não é o projeto errado.
Desistir é sempre ruim?
Não, e essa é uma confusão que faz muita gente adoecer. Existe desistência legítima: quando o custo está saindo da sua saúde, quando o caminho passou a exigir que você viole algo que é seu, ou quando você já sabe a resposta e só está adiando a conversa. O problema não é parar. O problema é parar no dia mais cansado, sem descansar antes de decidir.
O que faço quando a vontade de desistir chega no meio de algo importante?
Não decida nada naquele dia. Pare, respire, durma, coma, e dê um único passo a mais no dia seguinte, sem pensar na distância que falta. Reavalie só depois disso. A vontade de desistir que passa com descanso era cansaço. A que permanece depois do descanso merece ser escutada com seriedade.
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